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POST COMPRADO, BLOGUEIRO VENDIDO?

15/10/2012

O blog Rica de Marré, é exemplo de um blog local que sinaliza os post publicitários com a tag “Publi”

Certos leitores assíduos de blogs de moda nem suspeitam, quando estão lendo a última postagem de um de seus blogs preferidos, sobre alguma nova coleção que acabou de  chegar a uma loja qualquer, que se trata de uma publicidade. Acham que aquilo é novidade e nem desconfiam que se trata de uma propaganda, que se utiliza da fama do(a) blogueiro(a) para legitimar o potencial comercial dos produtos. A prática é comum e inerente, de certa forma, ao jornalismo de moda, entretanto na blogosfera é polêmica por causa diferença de atitude.

Em busca de precedentes a respeito desta prática, encontramos no Código Deontológico do Jornalista – que tem o objetivo de estabelecer regras e princípios pelos quais o jornalista deve se orientar no exercício de sua função – o norte de que “o jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesse”, o que já se contrapõe a prática dos blogueiros de negociarem post de promoção de produtos, por exemplo.

Indo um pouco mais além, até o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, nos deparamos com o Artigo 12, inciso IV, que é preciso ao dizer que o jornalista deve “informar claramente à sociedade quando suas matérias tiverem caráter publicitário ou decorrerem de patrocínio ou promoções”, o que aparece em revistas com a informação texto publicitário. O que não encontramos em blogs, salvo raras exceções.

Minha intenção não é contrapor jornalistas e blogueiros de moda (mais uma vez), até porque existe hoje uma fusão muito grande entre as profissões. Blogueiros que escrevem regularmente para publicações nacionais e jornalistas que tem blogs de grande repercussão na área. Meu intento é avaliar a prática da propaganda mascarada em blogs de moda no tocante a ética, que recentemente ocasionou um mal estar à francesa Sphora e a blogueiras paulistas, que anunciaram um produto (delineador e máscara da Yves Saint Laurent) comercializado na loja na ocasião de sua abertura no Brasil.

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária – Conar –, que fez uma recomendação a Sephora e as blogueiras Lala Rudge, Thassia Naves e Mariah Bernardes para que identificassem a postagem como publicitária, depois de receber mais de 700 denúncias sobre o caso, explicou à coluna que apenas compete ao conselho a publicidade comercial e que não se ocupa de conteúdo editorial produzido por fontes creditadas, como jornalistas. Entretanto, no caso citado acima, que apresentava quase mesmo texto e as mesmas informações e imagens sobre os produtos, as denúncias dos consumidores foram levadas em consideração.

Casos como esse podem ser repetir aqui em Maceió?

Dificilmente, é a resposta, uma vez que vários aspectos foram levados em consideração na decisão do Conar – entidade que existe há 34 anos – e o principal deles foi a quantidade de denúncias de possíveis consumidores dos produtos. A ação do conselho foi recomendar que as postagens fossem identificadas como comerciais. O Conar explicou, porém, que caso as blogueiras não quisessem atender a recomendação, nada poderia ser feito juridicamente, uma vez que o órgão foi acionado por consumidores e não pela Justiça, que recorre a entidade para dar celeridade a processos de propaganda ofensiva, por exemplo.

Em consulta ao Procon Alagoas, a coluna foi informada de que não há nada no Código de Defesa do Consumidor que coíba este tipo de propaganda em blogs, nem que apóie a ação de alguem que se sinta enganado por este tipo de postagem. “Só haveria dolo se esse tipo de matéria interferisse na integridade física ou moral da pessoa, no caso de propaganda enganosa ou abusiva”, alertou a assessoria do órgão.

O fato é que hoje existe um amplo mercado em Maceió, que envolve permutas de produtos e serviços, além de dinheiro pago a blogueiros para promoverem produtos das lojas em postagem, sem caracterizá-los como propaganda. A situação pode ser ainda mais preocupante se considerarmos que é uma prática em expansão entre os blogueiros da cidade, tanto que existe até um cisma entre a categoria, que por diversa vezes se uniu em bazares e outros eventos.

“As vezes os blogeuiros não gostam de determinado produto ou evento, mas falam bem apenas por causa do dinheiro ou de alguma coisa que ganharam em troca”, diz o blogueiro e estudante Kelvin Dustyn, que condena esse tipo de atitude. “Isso contribui para uma imagem negativa de quem bloga com moda, principalmente quando não se é verdadeiro na opinião expressa no post. É preciso ser honesto para não se banalizar a atividade.”

A blogueira Gabriela Sales, que é jornalista de formação, acha que o grande problema está em enganar os leitores. “Toda a questão está em não sinalizar um post como publieditorial. Hoje em dia, muitas pessoas têm na ferramenta do blog uma alternativa de emprego, então é natural que cobrem espaços publicitários, sejam em banners ou mesmo em posts de publicidade, desde que não enganem seus leitores e não digam que o que estão fazendo é uma propaganda, na qual recebem algo em troca, seja dinheiro ou presentinhos.”

Sales lembra ainda que, com muita frequencia, algumas empresas mandam, através de suas assessorais, produtos para os formadores de opinião – isso também inclui, obviamente, os jornalistas – para serem testados e, sem nem uma obrigação, virar pauta. “Isso acontece muito nos blogs de moda e tem sido visto com maus olhos. Para mim, é perfeitamente aceitável e uma resposta natural do nosso trabalho”, comenta.

Essa é uma discussão completamente ética, que ao meu ver, pode ser facilmente resolvida com a identificação de que determinado post é comercial e não a opinião do blogueiro expressa com honestidade. Já que não existe códigos ou órgãos que regulamente as atividades dos blogs, resta somente o bom senso para conduzir cada um nessa seara. “Acredito que esse seja o futuro dos bons blogs de moda, que souberem trabalhar muito bem as duas questões: retorno financeiro e compromisso com o leitor”, finaliza Sales com uma opinião que também compartilho.

Fashionistas opinam

“Se o blog é um veículo de comunicação, ele pode sim ter uma fatia do seu espaço dedicado à publicidade. Como é uma plataforma relativamente nova – e o formato de blog de moda mais novo ainda, às vezes gera essa confusão / mal-entendido da intenção do post publicitário no blog. Acho que é o caminho natural dos blogs – não só de moda -, já que há alguém se dedicando em desenvolver conteúdo, divulgando e tudo mais e no final das contas deve haver sim um retorno para o profissional”, disse Hebert Loureiro, que é jornalista e ilustrador.

“Minha opinião sobre temas publicitários em blogs de moda, acho que seja um pouco diferente, no sentido de não achar legal “se vender” por algo que não gosta. Sou a favor da publicidade por “hobby”, temas legais, divertidos que prendam a atenção do leitor e não exclusivamente no intuito de lucros. Talvez seja por isso que não sou rica (risos)”, comentou Gabriella Azevedo, que é publicitária.

Uma versão deste artigo foi publicada no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 14 de outubro de 2012.

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