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A BANALIDADE EM FOCO
Sem grandes inspirações a moda segue se reinventando com temais banais
Em meio a tantas propostas das passarelas a cada estação, como é possível para uma marca emplacar uma tendência nos dias de hoje? É simples, seguindo a mesma fórmula antiga que eu falei nesta coluna há duas semanas e que alguns estudiosos da moda descrevem como vestir os que dominam, em qualquer área que seja.
Folheando algumas publicações de moda, percebi o quanto os olhares de todos estão voltados para a estamparia como um grande diferencial. Isso por dois motivos, o primeiro é que estamos saindo de uma recente onda do minimalismo na moda feminina, que parece ter se instalado com a crise do final de 2008. Para os grandes CEOs do mundo da moda, menos foi mais.
O segundo motivo é a atual falta de novidade concreta e relevância na grande maioria das coleções apresentadas a cada estação – e agora nas meias estações também -, que parecem exigir que os criadores se voltem para temas mais banais para que as idéias surjam.
A tendência de estamparia do momento é a de grandes vegetais que a dupla de designers italianos Stefano Dolce e Domenico Gabbana apresentou em sua coleção para o verão 2012. Uma expressão siciliana que, mais uma vez, parece ter dado certo.
A Dolce & Gabbana recentemente teve a estamparia estrelas, da coleção do inverno 2011, copiada ostensivamente por muitas outras grifes mundo afora, inclusive aqui no Brasil, onde estrelinhas similares explodiram por todas as lojas de fast fashion virando hit. Antes dessa tendência vieram as rendas do verão 2011, que caíram no gosto das celebridades assim como os vegetais.
Atrizes como Claire Danes e January Jones já fizeram aparições com estamparia peculiar da dupla, legitimando a natureza da estamparia para a estação que está começando no hemisfério norte e que nós poderemos ver nas passarelas brasileiras na próxima temporada.
Uma versão deste artigo foi publicado no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 05 de maio de 2012.
MUDANÇA PELA MUDANÇA
Não existe regras estabelecidas para se estabelecer o que vai ou não ser moda na próxima estação, este é um campo livre de amarras
O calendário oficial da moda brasileira tem início no dia 22 de maio com o Fashion Rio, porém em Minas Gerais, muitas marcas brasileiras já apresentaram suas propostas em uma semana de moda dedicada a pré-coleções, o Minas Trend Preview. Paralelo ao Fashion Rio estará o Senac Rio Fashion Business, grande salão de negócios tocado por Eloysa Simão, e fechando o ciclo nacional vem a São Paulo Fashion Week.
Somados, estes quatro eventos apresentarão cerca de 100 coleções, com uma média de 30 looks cada, cheias de novidades ou não pra o próximo verão. É uma época onde são esperadas muitas incompreensões, principalmente, no que se diz respeito as mudanças que não se explicam senão pela própria mudança.
Algumas roupas são equisitas e fora do comum, o que causa certo estranhamento no consumidor final que vê um desfile. Mas por que será que estilistas criam dessa maneira? A resposta para isso é a lógica que faz parte da dinâmica da moda, que exige que tudo mude ou como melhor expressou Walter Benjamin, que torne a moda “a eterna recorrência do novo”.
O produto tem que ser apresentado de forma diferente e não como o mais bonito. Nesse aspecto vale lembrar o contraponto do sociólogo francês Jean Boudillar, que em seus primeiros escritos afirma que “roupas realmente belas, definitivamente belas, poriam fim à moda”. Estaria ele errado? Quem espera ver apenas coisas bonitas nas passarela não compreendem a dinâmica da moda.
Beleza e funcionalidade nem sempre são as bases para as criações, o que permite que os estilistas apenas mudem – o comprimento da saia por exemplo – de uma estação para outra sem nenhuma razão específica, ao contrário do que fizeram os estilistas durante a Segunda Guerra Mundial, criando modelos mais simples, que utilizavam menos tecidos.
“Em princípio, um objeto de moda não precisa de nenhuma qualidade particular além de ser novo”, disse o filósofo Lars Svendsen, em seu livro Moda: uma filosofia, o que assinala que talvez na próxima estação as saias fiquem mais curtas, os cintos fiquem mais finos ou ainda que o terno de dois botões seja o mais usado, sem nenhum motivo concreto para isso.
Não é preciso entender, nesse sentido, a razão da mudança, simplesmente porque na grande maioria das vezes ela não existe. A regra geral é que a moda está atrelada ao conceito do novo, ainda que vá buscar no passado a peça chave da próxima temporada.
Uma versão deste artigo foi publicado no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 29 de Abril de 2012
O PODER DA SIMPLICIDADE
O principal objetivo do criador de moda deve ser a excelência no trabalho e não o culto a sua imagem
A revista americana Time trouxe essa semana em sua lista anual com as 100 pessoas mais influentes do mundo, entre personalidades cuja influência está em um ponto de inflexão, o nome da designer de moda inglesa Sarah Burton, que desde maio de 2010 ocupa a direção criativa da grife Alexander McQueen.
Sarah Burton traçou sua trajetória ao longo de quase 15 anos como o braço do direito de McQueen. Tendo sido escolhida como sua assitente em 1996 e apontada em 2000 como chefe da linha feminina da casa.
Com a morte de Lee – como McQueen era carinhosamente chamado pelos amigos – em fevereiro de 2010, não foi surpresa para imprensa especializada que o Grupo Gucci (PPR), confimasse seu nome como sucessora do mestre da alfaitaria feminina moderna.
A designer inglesa, de 38 anos, diferente de outros estilistas que já figuraram na lista da Time, como Tom Ford (2011) e Marc Jacobs (2010), tem uma vida anônima e totalmente dedicada ao trabalho do ateliê. Seu principal mérito para crítica foi manter a mesma linha criativa de Lee a frente da marca fundada em 1992.
A escolha de Burton é um caso peculiar por refletir o primitivo modus operandi da moda no qual as camadas populares imitam a classe dominante, nisso sua escolha para lista se coloca de fato num ponto de inflexão.
Ela teria permanecido uma famosa relativamente anônima por mais algum tempo se não tivesse sido escolhida por Kate Middleton para confeccioanar seu vestido de casamento com o príncipe William em abril do ano passado. Coincidentemente, alguns meses depois, ela foi eleita a designer do ano no British Fashion Awards, prêmio mais importande da moda em seu país.
Vestir uma aristocrata tirou a tímida Sarah da obscuridade operária para os holofortes das mídias de massa. A moda ‘consagra o progresso do olhar estético nas esferas mundanas’, afirmou o filósofo francês Gilles Lipovetsky. O que serve como regra para influência dos estilistas no vida cotidiana.
“Foi uma grande honra ter sido convidada para fazer o vestido e estou muito orgulhosa do que a nossa equipe criou” disse Sarah Burton em comunicado oficial na ocasião do casamento real. Exemplificando a fórmula estabelecida desde meados do século XIX, que muitos criadores de moda precisam aprender, onde a obra – com algumas excessões – se torna maior que o criador. O contrario só tem levado ao fracasso.
Uma versão deste artigo foi publicado no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 22 de Abril de 2012
A DIOR, SIMONS E EU
Como uma das recentes mudanças no mundo na moda pode afetar a vida do consumidor comum
O assunto mais comentado dessa semana no mundo da moda, sem dúvida, foi o anúncio de Raf Simons como novo diretor criativo da maison francesa Dior. A notícia soa como algo grandioso para os assíduos consumidores da marca, porém, os demais devem estar se perguntando: o que eu tenho a ver com isso?
A maioria absoluta dos consumidores de moda e mesmo alguns fashionistas nunca ouviram falar de Raf Simons ou de suas peculiaridades enquanto criador, mas já ouviram falar da Dior, uma das etiquetas mais expressivas do conglomerado de luxo LVMH, que foi fundada em 1947 por Christian Dior, após a Segunda Guerra Mundial.
Entretanto o questionamento para muitos permanece: o que eu tenho a ver com isso se nem sequer uma peça da Dior eu possuo? Existem algumas repostas plausíveis para essa indagação e a isto que esse texto se destina, mostrar que a chegada de Simons pode alterar me decisão de compra nas próximas temporadas.
Como todas as marcas que integram o mercado de luxo, tudo o que a Dior coloca na passarela é copiado, seja por estilistas brasileiros ou pelas cadeias de fast fashion, que com mais agilidade colocam as peças desejo das passarelas nas araras. O que todo mundo acaba consumindo, sabendo a procedência ou não.
Mesmo não estando inseridos no ethos da moda, as pessoas consomem o que está se usando, o que se vê na novela, o que foi copiado das marcas de luxo, como a Dior, que terá as criações de Simons nessa posição de “matriz” para as peças “inspired” da vida.
O designer belga, de 44 anos, recém saído da direção criativa da marca alemã Jil Sander – depois de sete anos de considerável sucesso – irá ocupar o posto deixado pelo inglês John Galliano, demitido em fevereiro do ano passado depois de comentários anti-semitas em um bar do Marais, em Paris.
Na Jil Sander, além de ressuscitar o minimalismo, Simons, consolidou uma das tendências mais fortes das últimas temporadas, o color bloking, com sua coleção de cores fortes para o verão 2011. E quem ainda não vê essa tendência por aí?
Depois de um ano sem diretor criativo, a Dior dá um fim as criações de Bill Gaytten – odiadas pelos críticos – para lançar já na próxima temporada de alta costura de Paris o nome de Simons para além da mídia especializada. Não resta dúvidas de que o poder do LVMH, aliado ao talento do designer, darão a Dior o brilho requintado inerente a seu fundador e meio esquecido na época dos desfiles polêmicos de Galliano.
E ainda que não esteja em seus planos comprar um peça da Dior ou se interessar por Simons, vale recordar a cena clássica do filme O diabo veste Prada, onde a editora de moda Miranda Priestley ensina a sua nova assistente, Andreia, como nada do que usamos no nosso dia a dia está isento da indústria da moda, por mais que pensemos que sim.
Uma versão deste artigo foi publicado no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 15 de abril de 2012.
O BRILHO DE MILÃO
Em meio a tantas cores escuras o brilho dourado do inverno milanês confirma uma tendência de precedentes Hollywoodianos
Vez ou outra se ouve que a moda italiana é voltada para o homem, por causa da tradição difundida em alfaiataria e produção artigos de couro, porém na maior semana de moda da Itália, as grifes femininas exaltaram a beleza da mulher no inverno 2012.
Com a ajuda de um olhar específico para o passado e do dourado, presente em grande partes das coleções, os designers italianos criaram um ponta entre os elementos decorativos do passado e as atuais necessidades estéticas das mulheres modernas.
Donatella Versace, resgatando o espírito criativo de seu irmão – Gianni, morto em 1997 – cobriu com estampas e bordados reluzentes boa parte das peças de sua coleção. O uso intenso do dourado fez parte do estilo consagrado por Gianni Versace nos anos 1990. A inspiração para seu inverno veio do oriente, de Bizâncio e seu esplendor, mais precisamente.
Já a Dolce & Gabbana, que fez uma coleção com características extravagantes, foi buscar em seus raízes sicilianas a inspiração para o seu inverno 2012. A arquitetura do Barroco peculiar à ilha da Sicília, no sul da Itália, trazia tudo o que a dupla precisava para usar o dourado como o era no passado.
Ornamentos e arabescos brilhantes, misturados a transparência da organza de seda, trouxeram a tona o efeito chiaroscuro – uso estratégico de luz e sombra –, que a Ferragamo fez de forma semelhante e a Gucci explorou de maneira mais suave em seus longos vestidos estampados, sem a literalidade que beira o exagero.
Em um caminho mais moderno, Stefano Citron e Federico Piagg, diretores criativos da Gianfranco Ferrè, desenharam uma coleção onde a estrutura da roupa foi o ponto central. Cheias de recortes, as peças da grife misturaram peles e tecidos leves, tudo em tons escuros, que foram esquecidos logo que os vestidos dourados entraram na passarela.
A onda dourada se estendeu ao veterano Roberto Cavalli também usou o dourado em suas duas linhas, concentrando na marca mais jovem – a Just Cavalli – o look total na cor.
Parecia que tudo estava em perfeita sintonia com Meryl Streep, que no último domingo (26) recebeu seu terceiro Oscar, em um vestido completamente dourado da Lanvin, que Milão confirmou, ratificando os teóricos que tanto dizem que a moda vai das ruas para as passarelas.
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Uma versão deste artigo foi publicada no suplemento Sala VIP, de O Jornal, em 04 de março de 2012.
O DESAFIO DO TRAJE ÚNICO
Estamparia parece ser o principal recurso dos designers londrinos para enfrentar as fracas mudanças na moda nas últimas estações
Não há dúvidas que a semana de moda de Londres é a mais diversificada de todas. Dos alunos da Central Saint Martins – por onde passaram Galliano, Stella McCartney e Alexander McQueen – a veteranos de guerra, como Vivienne Westwood e Paul Smith, os criadores britânicos fazem parte de uma corte numerosa, onde o traje principal do inverno 2012 virá estampado.
A grande surpresa desta temporada não foram as formas, que permaneceram as mesmas, ou os materiais, que com exceção do astracã usado pelas gêmeas Annette e Daniela Felder, não foram além dos tradicionalmente empregados. A novidade da moda londrina ficou por conta de em um inverno cheio de estampas misturadas.
É preciso dizer que há por lá quem tenha muita experiência e habilidade em trabalhar com estamparia em níveis variados e sobre superfícies diversas. A Basso & Brooke, cuja direção criativa é do brasileiro Bruno Basso e do inglês Christopher Brooke, é pioneira no processo de estamparia digital na moda, usado por boa parte dos designers nesta estação.
A técnica digital funciona como uma impressora de papel, fazendo com que os desenhos sejam fiéis, tendo mais cores e detalhes. Diferente dos métodos tradicionais de estampar – com telas ou cilindros – o processo é “ecofriendly”, menos poluente, por consumir 75% a menos de água e menos componentes químicos.
Mary Katrantzou, a quem a jornalista Suzy Menkes chamou de “a rainha do tromp l’loeil”, talvez seja, na atualidade, a criadora mais habilidosa em dar a estamparia uma função diferenciada na beleza feminina. Embora muitas mulheres se sintam inseguras ao usar apenas uma peça estampada, as criações de Katrantzou apresentam um trabalho de modelagem que valoriza a silhueta e transforma a imagem da mulher. Basta olhar para sua última coleção e seu vestido de máquina de escrever vermelha.
Embora a estamparia digital seja o carro chefe dessa nova onda, os métodos tradicionais e os tecidos jacquard, tão bem usados por Matthew Williamson, foram as opções para de fuga do preto e outros tons escuros. Mesmo a tradicional Burberry, em um de seus desfiles mais mornos, aderiu à estamparia, assim como os outros, na busca de uma imagem única no meio de tantas coisas parecidas.
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